domingo, 17 de maio de 2009

Estou aqui olhando você respirar pela última vez. Deitado ao seu lado, nesse chão de tábuas corridas. Posso ver o vapor da sua respiração sair pela última vez de seus pulmões e tomar uma cor esbranquiçada fora da sua boca, em contato com o frio que faz aqui fora. Frio esse, não muito diferente do que tem aí dentro agora. Eu com um cigarro nos lábios, um copo de vodka no chão ao seu lado. Coço a cabeça com minha mão direita, apoiando o cotovelo no chão. Vejo a morte em seus olhos, que, nessa fraca iluminação vinda das luzes de neon da rua, estão parecendo negros. Seu sangue venoso ainda escorre, empapando minhas roupas e meu copo.
Outra tragada; Ainda não me bateu a certeza de que está mesmo morta. Mas sei bem porque tirei sua vida. Relembro como fiz. Mas ah, difícil encontrar um prazer maior do que esse momento pós-adrenalina de uma morte queimando na ponta do meu cigarro e ardendo em meu estômago dissolvido em vodka.


Eu a amava. Foi o sentimento que mais me fez acreditar em amor. Foram os meses mais felizes da minha vida. Eu nutria um ciúmes saudável. Seus olhos azuis, seus cabelos de caracóis escuros, seu corpo esbelto causavam inveja e desejos. Não tinha problemas com traições, eu não me importava com isso. Sabia que ela me amava.
Só por esses adjetivos ela parece bonita, eu sei, mas não era pra tanto. Mesmo assim eu me interessava mais pelas respostas que ela me dava do que só pelo corpo. Algo perfeito demais, uma combinação que me causava terríveis noites em claro pensando sobre isso. Eu não podia conviver com a idéia de que ela era a pessoa perfeita pra mim. Eu estava sempre procurando alguma coisa; Claro que ela tinha defeitos, mas eram tão pitorescos, tão deliciosamente colocados ali em meio às suas qualidades que eram, de certo modo, irretocáveis. Eu amava todas suas feições, todas as suas respostas ácidas ou doces. Amava cada mínimo detalhe, não poderia me desfazer de nenhum deles, e me matava de questionar se eu também era assim pra ela. Procurei nela qualquer brecha, revirei minha mente, tentei me mudar e nada do tipo funcionou. Meu amor, nosso amor, era algo completo e complexo. Era um amor moderno, não como aqueles dos romances antigos que as pessoas eram boas, sem defeitos, como se fossem santas. Ou aqueles em que as partes eram más, mas tinham o amor para compensar. Como se amar fosse bom ou ruim, como se existissem mesmo pessoas boas ou más. São só pessoas, e o amor é só mais um sentimento. Forte como qualquer outro.

Mas eu não me contentava com essa perfeição. Algo havia de estar errado, ao menos na minha cabeça. Eu me enchia de teorias de conspiração. Não havia combinação melhor para mim no mundo todo. Para ela, eu não poderia saber. Mesmo que eu a entenda, eu não podia ler seus pensamentos. Isso me matava por dentro. Ela dizia que eu era o homem da vida dela, mas as mulheres não sabem distinguir essas coisas. Ela nunca poderia saber com toda a certeza, quanto mais eu. E ela é um ser humano, mente. Eu nunca poderia acreditar nas palavras dela. Aliás, ninguém nunca pode acreditar de fato nas palavras de ninguém. Mas agente cria laços e acaba confiando nas pessoas. Mas eu já não tinha essa confianaça. Com o tempo, passei a duvidar de algumas coisas que ela dizia. Logo eu já não acreditava mais em nada que saísse da boca dela. Eu era cauteloso, eu tratava o que ela me dizia como verdades, mas não parava de procurar motivos para que ela estivesse mentindo ou omitindo algo. A dúvida é uma dor pior que a certeza. Corrói e te faz crer em qualquer coisa. Ah, me perdoem as outras pessoas, mas quem nunca sentiu isso não saberá do que estou falando. Sua imaginação melindrosa te corroendo por dentro. E você não crê mais na verdade que está diante dos seus olhos. Mas ela não pára por aí, ela volta no tempo e te faz reviver todos os piores momentos que tivera, momentos que fugiram da memória voltam à tona, e então me mostra o que pode ter acontecido enquanto estávamos separados. Contudo, a pior parte é quando essa máquina me leva pro futuro e começo a ver tudo acabando. Existe um leque de coisas que podem ter ocorrido, embora limitado pelo tempo de relacionamento. As que ainda podem acontecer, são incontáveis combinações, por tantos e tantos anos à frente, que te levam ao colapso. No fim você se vê obrigado a encerrar com isso ou ficará preso na máquina do tempo da loucura galopante.

Foi isso que eu fiz, cortei o mal pela raiz.

4 comentários:

Tanto faz disse...

Você foi burro em "cortar o mal pela raiz".

Amor bonito.

Amanda Maia disse...

A confiança é a base de todo relacionamento.A partir do momento que ele começou a duvidar do que ela dizia,não havia mais uma garantia da boa convivência entre os dois,e do amor que ele dizia sentir.Prefiro confiar cegamente nas pessoas que eu amo até ter uma decepção, a viver em estado de desconfiança.

Luiz Felipe Leal disse...

muito legal, suna.

Lary disse...

Ele virou possessivo, como aquelas "mulheres que amam demais anônimas (mada)".
O amor foi bonito e difícil de se achar.
Muito bom! :)